'Seria bom uma revisão da apuração', diz Bolsonaro sobre eleição na Bolívia

Folha'Seria bom uma revisão da apuração', diz Bolsonaro sobre eleição na Bolívia

Em seu último dia de agenda de compromissos no Japão, o presidente Jair Bolsonaro defendeu uma recontagem dos votos na eleição presidencial da Bolívia.

O pleito de domingo (21) tem gerado protestos no país e levou o próprio governo boliviano a pedir uma auditoria externa, em função de uma vitória contestada do atual presidente Evo Morales no primeiro turno. 

Uma missão de observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA) foi convocada a auditar os resultados após manifestar "preocupação e surpresa" com a mudança na forma de contagem dos votos.

A confusão ocorreu porque, após o fechamento das urnas, o Tribunal Superior Eleitoral boliviano usou dois métodos de apuração: somando os votos registrados em atas e contando os votos um a um. A apuração foi suspensa e, quando retomada horas mais tarde, deu a vitória a Evo Morales.

“Das informações que eu tenho até o momento, seria bom uma revisão da apuração, uma recontagem de votos”, disse Bolsonaro. “A OEA emitiu uma nota colocando em cheque a lisura das eleições.”

Na manhã desta quarta-feira (22), noite de terça-feira (21) no Brasil, o presidente conversou sobre o quadro político da América do Sul com um grupo de jornalistas brasileiros, incluindo a Folha.

"Realmente ficou muito suspeita, né. Como estava caminhando, quase na reta final, a suspensão da apuração, que depois da retomada deu vitória à situação. Isso aí acho que todo mundo fica preocupado com uma eleição sendo apurada dessa maneira”, ressaltou.

Diversos países, incluindo Estados Unidos, Argentina e Colômbia, assim como a União Europeia, também manifestaram preocupação com a situação.

Depois de uma segunda-feira de protestos violentos na Bolívia, a terça-feira registrou movimentos menos intensos durante o dia, mas violentas manifestações voltaram a eclodir à noite, em La Paz, quando cerca de 95% dos votos estavam apurados.

A oposição, sindicatos, organizações empresariais e cívicas anunciaram protestos para esta quarta-feira (23).

Às 22h40 de domingo (20), com 89% das urnas apuradas por meio da contabilidade de atas, Evo tinha 45,7% contra 37,8% de Mesa —o resultado levaria a um segundo turno, cenário previsto por pesquisas de intenção de votos.

Durante a noite, no entanto, a apuração foi suspensa e nenhum voto foi computado. Na segunda-feira pela manhã, o tribunal afirmou que a apuração um a um mostrava resultados diferentes. Diante das divergências, a apuração feita pelo método voto por voto passou a ser considerada a que traria o resultado oficial.

Na noite da segunda, porém, a apuração via atas foi retomada e, com 95,22% das urnas apuradas, Evo foi anunciado vencedor no 1º turno com 46,86% dos votos, contra 36,73% de Mesa.

Chile

Na conversa com o grupo de jornalistas, Bolsonaro voltou a afirmar que acredita que os protestos no Chile, que já deixaram pelo menos 15 mortos, são estimulados por partidos de esquerda da América do Sul que pretendem desestabilizar governos de centro-direita.

O presidente disse que o Brasil tem monitorado a situação de instabilidade e que pediu ao Ministério da Defesa que fique em alerta para, se for o caso, utilizar as Forças Armadas para evitar confrontos e tumultos no país.

“Conversei com o ministro de Defesa sobre a possibilidade de ter movimentos como tivemos no passado, parecidos como que está acontecendo no Chile”, afirmou.

Ele citou o artigo 142 da Constituição, segundo o qual as Forças Armadas têm como atribuições a defesa do país, a "garantia dos poderes constitucionais" e, se convocadas por um dos três poderes, a garantia "da lei e da ordem".

É com base nesse dispositivo que os militares foram chamados a participar de atividades de natureza policial nos últimos anos, como durante a intervenção decretada pelo ex-presidente Michel Temer (MDB) na segurança do Rio de Janeiro.

“Logicamente, essa conversa, ele [ministro da Defesa] leva a seus comandantes. E a gente se prepara para usar o artigo 142, que é pela manutenção da lei e da ordem caso eles [Forças Armadas] venham a ser convocados por um dos três poderes”, disse.

A onda de manifestações e confrontos no Chile, que começou na capital Santiago, se espalhou por diversas partes do país, mesmo após o presidente Sebastián Piñera ter cancelado o aumento nas tarifas de metrô, estopim para a crise atual.

A decisão não foi suficiente para acalmar os manifestantes, que tomaram as ruas da capital e de outras cidades importantes, incluindo Valparaíso e Concepción —todas sob toque de recolher. Apesar do decreto e da mobilização de quase 10 mil militares ajudando na segurança, os distúrbios continuaram.