Flerte por mensagem cria ilusão de conhecer alguém, diz autora de 'Cat Person'

FolhaFlerte por mensagem cria ilusão de conhecer alguém, diz autora de 'Cat Person'

“Fiquei surpresa ao ver que pessoas nunca imaginaram que isso pudesse se passar com uma jovem”, disse a escritora Kristen Roupenian sobre as reações a seu conto “Cat Person”, publicado no fim de 2017 pela revista New Yorker e rapidamente tornado viral.

No conto, uma jovem de 20 anos conhece um homem de 34, passa a trocar muitas mensagens pelo celular com ele, mas, quando o encontro é para valer, tudo dá errado.

Não há propriamente coerção, mas a garota sente como se não pudesse simplesmente sair da situação e passa a ver no homem que antes a interessava apenas aspectos asquerosos e repulsivos. O conto agora faz parte da coletânea “Cat Person e Outras Histórias” (Companhia das Letras, 256 págs., R$28), o primeiro livro de Roupenian.

A escritora americana participou nesta quinta (11) da mesa "Bom Conselho", na Festa Literária de Paraty, junto da canadense Sheila Heti, autora de “Maternidade”. A conversa foi mediada por Branca Vianna, a voz do podcast Maria Vai com as Outras, da revista piauí.

Segundo Roupenian, o conto mostra como trocar mensagens com alguém pode dar a falsa impressão de que se está conhecendo a pessoa, mas que há, na verdade, muito espaço para se fantasiar, se construir uma pessoa fictícia, por vezes muito distante da pessoa real.

“Esses flertes por mensagens, que sabemos que são prazerosos, dão a falsa sensação de que conhecemos alguém”, disse. O conto ganhou repercussão internacional nas redes sociais e fora delas. Mas, ao lê-lo no contexto dos outros contos reunidos em livro, como explicitou Vianna, tem-se a dimensão de que aquela também, como outros do volume, pode ser uma história de terror.

“Quando ‘Cat Person’ foi publicado na revista, alguns leitores mais espertos falaram: ‘Nossa, parece um filme de terror’. Num determinado momento você diz ‘não, não entra aí, não vá à casa dele’”, disse Roupenian a uma audiência em parte desatenta que, após um pouco menos de uma hora de debate, começava a deixar o auditório ou a mexer em celulares. A conferência era uma das mais aguardadas desta edição.

Mas a história não é de terror. “Nós mulheres fazemos algo enorme a partir dos sentimentos, maiores do que as circunstâncias.”

Como Vianna disse na abertura da mesa, a quinta da programação oficial do evento, as duas autoras têm algumas coisas em comum: ambas são brancas, da América do Norte, tratam de questões femininas em seus livros, e aparentam ter a mesma idade –Roupenian tem 38, Heti, 42.

Sheila Heti aborda em seu oitavo livro, “Maternidade”, por meio da voz de uma narradora que se confunde à da autora, as dúvidas de uma mulher sobre se deveria ou não ter filhos. “Eu queria que o livro fosse algo filosófico, uma luta contra essa pergunta, e você não sabe se ela é um demônio ou um anjo”, diz Heti. “Eu tinha a impressão de que o fato de me colocar essa pergunta já me levaria para longe da humanidade.”

Para Heti, embora estejamos num momento único da história da humanidade, em que as mulheres podem se colocar essa questão e podem escolher se querem ou não gerar uma vida, elas ainda são julgadas por suas decisões. “Se seu corpo pode ter filhos, só pode haver algo de errado com você se não quer tê-los. Há uma ideia de que, se você não tem filhos, você não adquire uma certa sabedoria, que você não amadurece, fica presa na adolescência.