Compulsão alimentar, pressão estética e quarentena: uma carta aberta por Letticia Munniz

Revista GlamourCompulsão alimentar, pressão estética e quarentena: uma carta aberta por Letticia Munniz

Você tem sofrido com compulsão alimentar na quarentena? Medo de engordar? Culpa? Não responda ainda.

A convite da Glamour, Letticia Munniz (segue lá no Instagram, ela é perfeita @letticia.munniz), modelo curve e influencer, escreveu uma uma reflexão importante sobre corpo, ansiedade e transtornos alimentares em tempos de isolamento social. E aí vai um spoiler: tá tudo bem - e vai ficar tudo bem!

Letticia Munniz (Foto: Ilustração @bruna.bsa)

Letticia Munniz (Foto: Ilustração @bruna.bsa)

"Nunca sofri gordofobia. Mas, por ser uma mulher grande, a pressão estética sempre fez parte da minha vida. Não me lembro quando comecei a odiar meu corpo. Foi tão nova, que as lembranças de não odiá-lo não existem na minha mente. Apesar da cintura fina, sempre tive coxas bem grossas o que me rendeu o apelido 'coxinha' na época da escola, que eu odiava. Quando me desenvolvi fiquei com (além das coxas grossas) bastante peito, braços… Mas, a referência, o sonho de toda mulher naquele momento era um só: ser magra. Mas também nem tanto, senão os homens não gostam né? (Essa frase contém ironia, é claro).

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Com esse 'sonho' na cabeça, já que só os exercícios que eu fazia na época não me emagreciam, começaram a compulsão alimentar e os distúrbios. Além de desenvolver uma bulimia e de tomar laxantes (isso bem novinha, aos 12 anos), também me privava de comer e a compulsão vinha com força. Comia uma barra de chocolate inteira, um pacote inteiro de biscoito, um saco inteiro de bombom -- em alguns minutos comia tudo o que 'não podia' de uma vez só para depois me castigar ficando sem comer, vomitando e tomando remédios para emagrecer…

A compulsão ainda jovem veio da tentativa de ter um corpo que eu era pressionada a ter, de ver as amigas magras sempre lindas e com roupas legais que não ficavam bem em mim. Por um bom tempo foi só estético, e, aí, a gente vai crescendo... E a compulsão vem de outros lugares também: medo, incerteza, ansiedade, estresse, preocupação financeira… Quem nunca teve um problemão para resolver no trabalho em frente ao computador e comprou um monte de chocolate para comer enquanto o resolvia? 

Por muitos anos, a compulsão alimentar regeu a minha vida. Até que me livrei dela quando me aceitei (papo para outro texto!) e entendi que a restrição gerava compulsão. Hoje já não busco mais o corpo perfeito, porque sou meu próprio padrão de beleza, não me restrinjo mais. Se me sinto instável, ou com alguns desses sentimentos ruins, me permito comer aquele doce que eu tanto quero. Me permitindo, sei que não vou exagerar. Mas, agora, em meio a uma pandemia, isolados, com medo, ansiosos, com preocupações financeiras, sem ver o fim disso tudo, e sentindo todos esses sentimentos ruins todos os dias, como controlar a compulsão?

Letticia Munniz (Foto: @letticia.munniz)Letticia Munniz (Foto: @letticia.munniz)

Letticia Munniz (Foto: @letticia.munniz)

Além de receber todos os dias as 'piadinhas' gordofóbicas -- seja no grupo da família ou no Instagram -- está todo mundo da internet malhando, cozinhando. Parece que a quarentena de todo mundo é um spa, menos a sua! Caaaalma, eu também me sinto assim e acho que a maioria das pessoas também. Acredito que a chave para nao ficar ainda mais ansiosa é lembrar que as pessoas só postam o que elas querem. Tem bastante gente rica por aí que talvez esteja vivendo essa quarentena como férias mesmo, mas esse não é o nosso caso --- e ficar se comparando só deixa a gente ainda mais ansiosa, né? 

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Consegui controlar minha compulsão entendendo de onde ela vinha. Você já tentou conversar com você quando está mal? Muitas vezes a gente não tem a resposta para os nossos problemas, mas comer um monte de coisa que vai te fazer mal depois com certeza não é a solução. Nesse tempo em isolamento - já estou a quase duas semanas - tenho, além de me permitido, cuidado com amor. A gente dedica tanto do nosso tempo para os outros né? Seja nas amizades, seja querendo dar uns beijos, namorar, casar, ter filhos… A gente cozinha para o outro, descobre tudo que ele gosta e faz de tudo pra agradá-lo… Mas, você já tentou fazer isso com você? Já tentou descobrir e reconhecer quem você é de verdade?

Essa atenção fez parte do meu processo e acho que, agora, apesar de não estarmos bem, temos mais tempo para prestar mais atenção na gente. Além disso, ao invés de ficar uma semana pensando naquele chocolate, porque você nao come um pedaço dele logo para não ficar idealizando tanto esse momento (e achando que esse chocolate vai ser a solução dos seus problemas)? Comida não é a solução, mas ela é bem gostosa! Então, pense nela assim, como uma parte gostosa do seu dia, não como algo que vai fazer você ficar de mal com você mesma depois de comer em excesso.

Se cuide com amor, beba bastante água, chás, leia, assista séries e filmes incríveis, coma o que sente vontade, malhe por amor ao seu corpo e não para queimar tudo o que comeu, se conheça, se reconheça, entenda quem você é e dê a você o amor e o carinho que dá para os outros. E, se precisar, procure ajuda! 

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Mantenha contato com seus amigos, troque experiências, seja por mensagem, telefone ou por videoconferência, busque assistir coisas que te inspirem e que possam te ajudar no trabalho ou mesmo na sua vida pessoal. Busque informação, afinal, ela é a chave do empoderamento. Entenda qual é a forma que você mais absorve informações, se conheça primeiro para poder dar cada passo na sua vida e não se esqueça… Você não está sozinha!

Com amor, lele <3"

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