Cientistas flagram lago esvaziar em questão de horas na Groenlândia

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Washington, 3 dez 2019 (AFP) - Cientistas puderam observar em tempo real um lago situado na superfície da espessa camada de gelo da Groenlândia esvaziar através de fendas profundas em questão de horas, um fenômeno que estimam que será cada vez mais frequente devido ao aquecimento global.

A camada de gelo na Groenlândia pode chegar a ter um quilômetro de espessura e, durante o verão, é comum que parte da superfície derreta, formando lagos. Estes podem, depois, encontrar uma fenda no gelo e, sob pressão, aumentar essa fenda e abrir um imenso buraco que desce até a base da calota polar, um quilômetro abaixo.

Este fenômeno conhecido é difícil de observar in loco, mas glaciologistas do Scott Polar Research Institute, da britânica Universidade de Cambridge, tiveram sorte ao chegar à geleira Store, no oeste da Groenlândia, em julho de 2018.

Dias depois de sua chegada, dois terços do lago, com cerca de cinco milhões de litros d'água, desapareceram da superfície, engolidos pelo solo em apenas cinco horas, segundo relato feito em um estudo publicado nesta segunda-feira (2) na revista científica PNAS.

Fotos aéreas tiradas pelo pequeno drone da equipe de pesquisadores mostram a situação do lago antes e depois da infiltração.

"O drone é que nos permite fazer observações de alta qualidade em zonas que não são seguras para os cientistas", explicou à AFP Tom Chudley, doutorando e piloto remoto da aeronave não tripulada.

Ao tirar as fotos georreferenciadas por GPS, o drone permitiu reconstruir a evolução tridimensional do relevo do gelo.

Uma geleira é um rio de gelo que avança para o oceano. Quando o gelo chega na água, originam-se os icebergs, que representam cerca de 40% da contribuição da Groenlândia com a elevação do nível do mar. O restante se deve ao degelo.

A geleira Store avança 600 metros todos os anos. O que os cientistas conseguiram observar é que o desaparecimento repentino do lago se acelerou temporariamente, de dois a cinco metros ao dia. A água que passou sob o gelo lubrificou a geleira.

Foi ainda mais surpreendente, contam os cientistas, comprovar que o nível da água havia elevado 55 centímetros a gigantesca camada de gelo durante horas.

"Um quilômetro de gelo levantado a meio metro... Deixo-os imaginar a pressão que isto implica", diz Tom Chudley.

O interesse do estudo é descrever com mais precisão a formação destas imensas fendas, que se transformam depois em "autopistas" para fazer a água cair da superfície até o leito da calota polar, o que pode acelerar o movimento das geleiras.

"Com as mudanças climáticas, na Groenlândia vemos mais lagos, maiores e mais altos nas partes mais frias da calota. E vemos como alguns destes lagos começam a se esvaziar", explica Chudley.

"O volume de lagos que esvaziam aumentará potencialmente em lugares novos que não conhecíamos até o momento".