Análise | Devolver Bootleg e a arte de não se levar tão a sério

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Os jogadores mais velhos devem se lembrar de que, à época do Nintendo (NES) e Super Nintendo (SNES), era comum usarmos cartuchos pirateados de jogos que a gente jurava que existiam, mas nossa tenra idade não nos permitia saber que se tratavam de falsificações baratas. Vários são os títulos dessa estirpe, mas um que vem à cabeça facilmente é o famoso Sonic 4, que nada mais era que o jogo oficial do Ligeirinho, personagem de Looney Tunes (Speedy Gonzales: Los Gatos Bandidos), com sprites trocados para enganar os mais trouxas.

Eu mesmo tinha uns 40 desses cartuchos falsos e, na grandiosidade dos meus sete para oito anos de idade, sequer sabia o que era "pirataria".

A Devolver Digital, que já conquistou boa parte da redação do Canaltech com seus jogos independentes de alta qualidade, inteligentemente nos remete à essa época pirateira em um lançamento que é, em partes iguais, sem vergonha de tão tosco e incrivelmente divertido de tão malandro. Mas mesmo essa diversão, infelizmente, acaba logo dando lugar à uma experiência repetitiva e tediosa.

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(Captura de Imagem: Rafael Arbulu)

Em Devolver Bootleg, a empresa brinca de piratear os seus próprios jogos, criando versões alternativas que, em nenhum momento, ambicionam equiparar-se às suas contrapartes originais em gráfico, áudio, jogabilidade ou fator replay. São oito jogos bem ruins de outros oito jogos muito bons da empresa — alguns, inclusive, já avaliados pela nossa equipe.

OriginalBootleg
Enter the GungeonEnter the Gun Dungeon
Hotline MiamiHotline Milwaukee
Ape OutApe Out Jr.
DownwellShootyboots
LuftrausersLuftrousers 3
AbsolverSuper Absolver Mini Fighter
Gato Roboto

Cat Game (menu principal)

Catsylvania (menu do jogo)

PikunikuPikubiku Ballstars

Cada jogo bebe da fonte de seus respectivos originais, mas de uma forma tão burra que não tem como não ser divertido. Ape Out Jr. é de longe o mais bem trabalhado desses jogos horrorosos, e isso é dizer muito de um produto que tem a clara intenção de ser ruim desde o início do aplicativo no seu computador: o simples fato de você acionar o software e espetar um joystick já lhe confere duas conquistas (achievements), enquanto remover o joystick traz mais uma.

(Captura de Imagem: Rafael Arbulu)

Esse tipo de sandice, obviamente, é uma brincadeira da Devolver com um período bem estranho da indústria de jogos, quando falsificadores não se limitavam a criarem cópias exatas de jogos a fim de escapar dos preços exorbitantes praticados na época. Não, os casos aqui eram de alteração do próprio jogo, empenho em fazer mudanças tão notáveis no intuito de apenas inserir uma logomarca mais famosa e ganhar trocados extras. A atual comunidade de modding dos grandes jogos de PC faz mágica hoje em dia, mas é certo que deve a sua existência àquela época.

O grande problema de Devolver Bootleg é que, assim como qualquer piada contada repetidas vezes pelo seu tio bêbado no churrascão da família, ele perde a graça com facilidade. É divertido no começo de toda a experiência você ver uma publisher fazendo troça de um dos maiores problemas da indústria de jogos — e com o seu próprio catálogo, ainda por cima —, mas a piada perde a mão rapidinho. É como se você estivesse ouvindo a mesma música várias e várias e várias e várias vezes: com o tempo, deixa de ser uma canção e se torna apenas “barulho”. Irritante, confuso, mal composto barulho.

(Captura de Imagem: Rafael Arbulu)

É claro que dá para você abstrair dessa “querência” por qualidade por alguns instantes e simplesmente inicializar um jogo para matar o tempo: nesse aspecto, Bootleg é tão recomendado quanto qualquer outro. Mas a experiência se torna enfadonha rápido e a nossa mente começa a sentir a necessidade de algo diferente rolar na tela. E isso é o que ficou faltando.

A iniciativa foi bem inteligente: há até brincadeiras com o próprio sistema de cobrança da Steam — Devolver Bootleg está disponível no marketplace digital com desconto de 1%. Isso porque qualquer desconto confere uma chamada de destaque dentro da página inicial da loja.

Acho que nem a Devolver Digital espera muitos elogios técnicos por Bootleg: convenhamos, um compêndio de jogos intencionalmente bobos não tem muita barganha para exigir análises densas e aprofundadas. Há quem também possa pensar que existe algum tipo de mensagem subliminar, ou protesto, ou qualquer outra ação do tipo, mas não. A Devolver simplesmente colocou essa peça no mercado para tirar com a nossa cara, e nos ver rindo à beça enquanto faz isso. Não que eu tenha me importado: no geral, eu gostei bastante de jogar Devolver Bootleg, mas é o tipo de coisa que esgota rápido e, depois disso, deixa apenas a sensação de tempo perdido.

Devolver Bootleg foi jogado com cópia cedida gentilmente ao Canaltech pela Devolver Digital.